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Love me, if you dare.

Aceitas ou não aceitas?
Sophie Kowalsky  é uma emigrante polaca maltratada pelos colegas parisienses da escola primária.
Começa o jogo. Julien Janvier, um dos miúdos, resolve não entrar por essa porta e inicia uma brincadeira com ela, em que cada um desafia o outro –  o testemunho é uma caixinha de música, que vai passando de um para outro à medida que vão superando as traquinices. As duas crianças vão crescendo e as provocações vão sendo cada vez mais audazes. O que poderia, à partida, ser um inocente jogo de crianças evolui para um divertimento perverso, que captura as duas personagens principais. O mundo deles é unicamente preenchido pelos desafios, é esse o combustível que lhes dispara a adrenalina. Aliás, todas as outras personagens acabam por ser pontuais e quase insignificantes (talvez com uma excepção para a mãe moribunda de Julien).

Os despiques. Eles vão envelhecendo, mas vão resistindo e adaptarem-se ao mundo dos adultos e a persistência do jogo marca essa resistência.
«Ser adulto significa isto: ter um conta kilómetros que marca 280Km/h e não ultrapassar os 60.» (Julien)
Sucedem-se períodos de afastamento, indispensáveis para a sobrevivência de Sophie e Julien. No entanto, separados, fazem isso: sobrevivem. Os entraves não facultam que assumam que são apaixonados um pelo outro – afinal eles são os melhores amigos e estão unidos pelo cordão umbilical das travessuras da infância.
Os empregos, os casamentos, os filhos, as tentativas de se fazer o que é esperado. Mas nem sempre é o que é esperado de nós, é o nosso destino.

O desafio Final. Como é propósito de Yann Samuell, o filme evolui num crescendo que evoca as tragédias clássicas, embora com apontamentos humorísticos muito bem conseguidos.
A própria cor do filme evolui do extremamente saturado para uma cor quase em escalas de cinza, apenas pontuado pelo vestido vermelho-sangue/ vermelho-paixão de Sophie.
Os cenários são pensados ao centímetro, a componente visual lembra um mundo onírico, quiçá devido à anterior experiência do realizador na ilustração e no cinema de animação.
O crescimento e os episódios mais marcantes da vida dos protagonistas são acompanhados pela La Vie en Rose. Coincidência, anos mais tarde, será precisamente com a interpretação de Edith Piaf que Marion Cotillard ganhará o seu primeiro Óscar.

Às primeiras imagens, ocorre imediatamente um nome ao pensamento: Amélie Poulain. As directivas são semelhantes: jovem realizador francês, protagonista bela e pueril, género de comédia romântica, com matizes poético- filosóficas. Para mais, os filmes são praticamente contemporâneos e é muito provável que cativem o mesmo público.
Se quando crescer for um pudin flan, a vida não será muito mais saborosa?

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